
Por Rodrigo Martiniano
Às vésperas das eleições de 2026, uma conquista que parecia definitivamente incorporada à democracia brasileira voltou a ser questionada. Nas redes sociais e em podcasts, influenciadores discutem a qualidade do voto das mulheres e até a conveniência de elas continuarem votando.
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Mulheres “votam estatisticamente mal”, seriam mais emocionais, menos interessadas em política e mais suscetíveis a discursos prontos, dizem eles. O voto feminino já foi chamado de “erro da democracia ocidental”. Há também a defesa do chamado “voto familiar”, segundo a qual a família teria uma única representação e, em caso de divergência, a palavra final caberia ao homem.
O fenômeno ultrapassa a extravagância das redes sociais. O antifeminismo contemporâneo tem sido estudado como fenômeno político que encontrou no ambiente digital condições especialmente favoráveis de organização e difusão. Comunidades antes relativamente isoladas conseguem produzir conteúdo, formar públicos e levar suas pautas para o debate mais amplo.
O que merece atenção é o passo seguinte. Criticar o feminismo, defender valores conservadores ou discordar das escolhas eleitorais das mulheres faz parte da disputa política. Questionar seu direito ao voto é outra coisa. Significa deslocar a discussão das ideias para a própria condição de cidadania.
A premissa da democracia é justamente a oposta. Ninguém precisa demonstrar que vota “bem” para conservar direitos políticos. O voto expressa a igualdade política entre cidadãos, independentemente de gênero, raça, orientação sexual, recursos financeiros, escolaridade, racionalidade ou concordância com determinada visão de mundo.
Por isso, a frase segundo a qual mulheres votam mal contém um problema maior do que aparenta. Mal para quem? Pesquisas sobre eleições latino-americanas encontram diferenças no comportamento eleitoral de homens e mulheres, mas apontam fatores como ideologia e identificação com o feminismo para explicar parte dessas diferenças.
Há também algo revelador na proposta do voto familiar. Ela substitui o indivíduo pela família como sujeito político e introduz dentro dela uma hierarquia, pois alguém precisa falar pelos demais. Se a palavra final pertence ao homem, a mulher passa a ser representada, na esfera política, por marido, pai ou “chefe” da família, em lugar de comparecer à democracia como cidadã autônoma. Registro, a propósito, que metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, segundo o Censo de 2022.
A história da cidadania pode ser lida, em boa medida, como história de sua ampliação. Mulheres, pessoas pobres, analfabetos e outros grupos passaram por longos processos até serem incorporados ao eleitorado. No Brasil, a Constituição de 1988 consolidou essa expansão do sufrágio e das garantias eleitorais.
Homens também acertam e erram, votam informados ou desinformados, pela razão ou pela emoção, sem que isso jamais tenha colocado em xeque o direito ao voto masculino.
Então, resta-nos a seguinte indagação: por que a liberdade de escolha das mulheres volta a incomodar justamente quando elas escolhem por conta própria?
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