
Por Nizomar Falcão
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Brasil (Caged) e CadUnico (Cadastro Único de Programas Sociais) demonstram que o Brasil atingiu a marca de 48 milhões de pessoas recebendo Bolsa Família contra 39 milhões de empregos CLT.
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A situação se agudiza nos estados do Norte e Nordeste; isto é, chegamos a um marco preocupante: nessas regiões há mais brasileiros vivendo de transferência de renda do Estado, que trabalhando com carteira assinada.
Tal condição, digna de reflexão, aponta para o fato de que as políticas públicas, concebidas para resgatar essas pessoas da extrema pobreza, estão em desacordo com fatores psicoculturais, bem como, crenças, tradições filosóficas e religiosas, antropologicamente encarceradas na nossa gente, notadamente com o sistema sócio-econômico do reciprocidalismo.
O reciprocidalismo – objeto da minha tese de doutoramento, defendida junto a Universidade de Milão, Itália – se manifesta entre os agricultores familiares das regiões secas, como uma economia de trocas e doações que se opõe e funciona como alternativa tanto à lógica individualista da economia de mercado quanto à dependência assistencialista da Economia de Estado.
O conceito é uma revalorização das práticas tradicionais de Reciprocidade (dar, receber e retribuir), elevando-as a um modelo filosófico e prático de progresso econômico e social.
Os eixos de manifestações do reciprocidalismo, por meio de práticas comunitárias, que garantem a sobrevivência e a coesão social em um ambiente de escassez e vulnerabilidade, são incontáveis: (1) alternativa à economia de mercado (oposto ao lucro) – o modelo capitalista prioriza o lucro e a acumulação individual.
O reciprocidalismo, ao contrário, foca na reprodução social da vida e na garantia da subsistência de todos; (2) alternativa à economia de Estado (oposto à dependência) – a crítica que faço ao Estado é que, muitas vezes, suas ações se resumem ao assistencialismo ou a projetos de “cima para baixo” que criam dependência e não autonomia.
O reciprocidalismo considera a emancipação dos agricultores, um distintivo do empoderamento local.
Sinteticamente, o reciprocidalismo funciona como o capital social da agricultura familiar e doméstica (doar e receber) e a um terceiro invisível: a aliança.
Em regiões secas, onde o capital monetário é escasso e a intervenção estatal pode ser ineficaz, a capacidade de confiar no vizinho e de contar com o apoio mútuo é a verdadeira garantia de sobrevivência e de desenvolvimento sustentável.
É o mecanismo que transforma a escassez em cooperação, a vulnerabilidade em resiliência, a amizade em proteção.
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