
Por Rubênia Lauriza
Em muitos anos trabalhando dentro da saúde, aprendi a observar aquilo que os números costumam mostrar tarde demais. Um serviço não começa a adoecer somente quando faltam leitos, medicamentos ou equipamentos. Às vezes, o primeiro sinal está no rosto de um profissional exausto, que termina um plantão e volta para casa carregando situações que não conseguiu deixar na porta do hospital.
Siga o PODER NEWS no Instagram
Também aprendi que os trabalhadores da saúde se acostumaram a suportar coisas que jamais deveriam ser consideradas normais. A refeição interrompida, a jornada que se prolonga, a equipe reduzida, a agressão verbal, o medo de cometer um erro, a cobrança sem apoio, a dificuldade de descansar e a necessidade de manter mais de um vínculo para completar a renda. Aos poucos, o extraordinário vira rotina. E o sofrimento, quando não encontra espaço para ser ouvido, começa a aparecer no corpo, no sono, no humor e nas relações familiares.
Conheço essa realidade porque minha trajetória profissional me permitiu enxergar a saúde por diferentes ângulos. Trabalhei na assistência como Auxiliar de Enfermagem e Enfermeira em todos os níveis de complexidade, inclusive no SAMU/CE. Atuei na Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza e de Cascavel e na Secretaria da Saúde do Estado do Ceará como Auditoria e Gestora na organização dos serviços. Minha passagem pelo Coren-CE também me aproximou das dificuldades enfrentadas por enfermeiros, técnicos e auxiliares em diferentes ambientes de trabalho. Em todos esses espaços, confirmei uma convicção: não existe assistência de saúde verdadeiramente eficaz quando o profissional responsável por esse atendimento não é respeitado, valorizado e reconhecido pelo seu trabalho.
Quando escrevi que a doença renal começa muito antes da diálise, quis chamar atenção para a necessidade de agir antes que uma condição se torne grave ou irreversível. O mesmo raciocínio precisa ser aplicado à saúde de quem trabalha na assistência. O adoecimento do profissional começa muito antes do afastamento. Começa na sobrecarga repetida, no cansaço que não passa, na violência naturalizada, no descanso insuficiente e na sensação de que ninguém está percebendo a importância do papel do profissional “cuidador” no processo de cura ou de proporcionar bem estar ao paciente. Pois um familiar nunca ouvirá de um profissional da enfermagem a seguinte frase: “Infelizmente não posso fazer mais nada por ele…”
Os dados confirmam que não estamos falando de casos isolados. Entre 2012 e 2024, o INSS registrou 70.701 licenças de profissionais da Enfermagem por questões relacionadas à saúde mental. Técnicos, auxiliares e enfermeiros aparecem entre as ocupações com maior número de afastamentos. O próprio Cofen alerta que esse total não alcança toda a realidade, porque não inclui afastamentos inferiores a quinze dias, parte dos servidores vinculados a regimes próprios de previdência e diversos profissionais são autônomos.
Essa ausência de informação precisa ser enfrentada. Não podemos formular políticas consistentes sem saber quantos profissionais adoecem, quais são os principais motivos dos afastamentos, em que regiões o problema é mais grave e como fatores como jornada, número de vínculos, trabalho noturno, violência, assédio e deficiência de pessoal interferem nessa realidade. Um cadastro sem atualização prejudica o planejamento de uma instituição; da mesma forma, a falta de dados atualizados sobre os trabalhadores impede que o poder público compreenda onde estão os maiores riscos e quais medidas precisam ser adotadas primeiro.
A pandemia tornou esse sofrimento mais visível, mas não o criou. Pesquisa da Fiocruz com mais de 21 mil trabalhadores que exercem atividades muitas vezes pouco reconhecidas dentro dos serviços de saúde encontrou desgaste profissional relacionado a estresse, ansiedade e esgotamento em 80% dos participantes. É um dado do contexto da Covid-19 e não uma prevalência atual de toda a força de trabalho. Ainda assim, ele nos lembra que a saúde também depende de trabalhadores que raramente aparecem nas homenagens, mas sem os quais hospitais, unidades e serviços simplesmente não funcionam.
Por isso, defendo a construção de uma agenda estadual para a saúde dos trabalhadores da saúde. O primeiro passo deve ser produzir um diagnóstico atualizado do Ceará, com dados agregados e protegidos, separados por categoria profissional, região, tipo de serviço, vínculo e causa de afastamento. Precisamos conhecer a realidade de Fortaleza, da Região Metropolitana e do Interior, da atenção primária, das UPAs, do Samu, dos hospitais, das policlínicas, da saúde mental, da rede filantrópica e dos demais pontos de assistência.
Também considero necessário reunir profissionais, gestores, universidades, sindicatos, conselhos, entidades e especialistas em uma audiência pública estadual. Não para repetir discursos prontos, mas para ouvir quem trabalha nos plantões, nas unidades e nos territórios. Quem enfrenta o problema diariamente precisa participar da construção das respostas.
Na Assembleia Legislativa, um mandato não pode contratar diretamente equipes para um hospital nem administrar os serviços do Executivo. Pode, no entanto, propor leis dentro de sua competência, apresentar indicações, fiscalizar as políticas estaduais, solicitar informações, acompanhar o orçamento, promover audiências, apresentar emendas e cobrar resultados. Respeitar o eleitor e os profissionais também significa dizer com clareza o que uma deputada pode fazer e assumir compromissos que possam ser cobrados.
Quero trabalhar para que o Estado acompanhe os riscos psicossociais nos serviços de saúde, fortaleça o atendimento confidencial aos trabalhadores, prepare gestores e chefias para identificar sinais de sofrimento, adote protocolos diante de violência e assédio e ofereça acolhimento após situações críticas, como mortes traumáticas, agressões e eventos assistenciais de grande impacto emocional.
Valorização não se resume a homenagem, fotografia ou aplauso em datas comemorativas. Ela aparece na remuneração justa, na segurança para o profissional, na educação permanente, nas equipes adequadas, no respeito entre profissionais e gestores e na liberdade de pedir ajuda sem medo de julgamento ou prejuízo na carreira. Essa compreensão já orienta a plataforma que venho apresentando aos cearenses: melhores condições de trabalho, atenção à saúde mental, diálogo permanente e participação de quem vive a realidade dos serviços.
Quero que os profissionais da saúde do Ceará saibam que essa pauta não será tratada por mim como um assunto secundário. Ela está diretamente ligada à segurança do paciente, à qualidade do atendimento e à capacidade de a rede continuar funcionando com serviço de saúde de qualidade.
Não podemos continuar exigindo humanidade de equipes que muitas vezes não recebem um tratamento humano dentro do próprio ambiente de trabalho. Não podemos pedir equilíbrio emocional sem oferecer apoio. Não podemos cobrar excelência sem discutir estrutura. E não podemos esperar que o afastamento aconteça para reconhecer que algo vinha dando sinais havia muito tempo.
Quem cuida também precisa ser cuidado. E esse cuidado precisa começar antes do afastamento.
Artigos assinados por colaboradores não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Poder News

