
Por Giovani Magalhães
A recuperação judicial da Estrela talvez seja um dos retratos empresariais mais simbólicos do Brasil contemporâneo. Durante décadas, a Estrela não vendeu apenas brinquedos. Vendeu infância, convivência, imaginação e memória afetiva.
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Banco Imobiliário, Autorama, Genius, Falcon e tantos outros produtos atravessaram gerações e ajudaram a construir experiências familiares que permaneceram vivas no imaginário coletivo brasileiro.
Mas o mercado mudou. E mudou de forma extremamente agressiva. A criança que antes desejava brinquedos físicos no aniversário, hoje frequentemente deseja um tablet, um smartphone ou acesso a plataformas digitais.
O tempo antes ocupado por brincadeiras tradicionais passou a ser disputado por telas, algoritmos, vídeos curtos e jogos eletrônicos estruturados para capturar atenção de forma contínua.
Curiosamente, até mesmo a cultura pop passou a refletir essa transformação. No novo Toy Story, personagens clássicos como Woody e Buzz Lightyear deixam de ocupar o centro emocional das crianças e passam a disputar espaço com dispositivos eletrônicos.
Aquilo que parece apenas entretenimento infantil é, na verdade, uma representação poderosa de transformação econômica, tecnológica e social.
Empresas não entram em crise apenas por má gestão. Muitas vezes, entram em crise porque a sociedade muda, porque o comportamento humano muda e porque o consumo se transforma em velocidade superior à capacidade de adaptação das estruturas empresariais tradicionais. E é exatamente aqui que o direito empresarial demonstra sua relevância prática.
O direito empresarial não está restrito aos tribunais ou às recuperações judiciais. Ele está presente na adaptação das empresas, na preservação de atividades econômicas e na tentativa de sobrevivência de negócios diante de mercados cada vez mais tecnológicos e dinâmicos.
Quando uma empresa tradicional busca recuperação judicial, não estamos olhando apenas para números frios de balanço patrimonial. Estamos olhando para mudanças culturais profundas.
Talvez a maior concorrente da indústria tradicional de brinquedos não tenha sido outra fabricante de brinquedos. Talvez tenha sido a própria economia da atenção.
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