
Poucos, nos meios político e jurídico mais relevantes do Brasil, dormiram bem desta quarta-feira, 29, para hoje, com o barulho dos tambores da oposição.
De forma legítima, politicamente falando, o bolsonarismo e arredores puxaram para si os louros da derrota do presidente Lula, na rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF).

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Ainda na noite senatorial histórica – sob gritos de senadores, em transmissões ao vivo -, aqui foi reunida uma série de insights sobre ganhadores e perdedores com o episódio. Segue depois da publicidade
Parte do que foi dito lá está na cobertura desta quinta-feira, 30. Menos o fato de que não foi a oposição quem ganhou – foi Lula quem perdeu. É diferente. Vejamos.
Até a CCJ, tudo bem
Vamos aos detalhes, mas antes, a síntese: é impossível dizer que a oposição construiu a própria vitória sobre o Palácio do Planalto – ou cavou a derrota de Lula -, como queiram.
No esquenta, ao longo da sabatina do advogado-geral da União na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o clima era, basicamente, o mesmo de outros, já conhecidos.
O governo jogou confete no indicado; o indicado, entre evasivas jurídicas, investiu no figurino que deve vestir um ministro do STF; a oposição usou o momento para palcos e vitrines eleitorais.
O resultado positivo na CCJ, por 16 a 11, e a visita a 78 senadores, ao longo dos últimos meses, montavam uma prévia do que deveria acontecer, em seguida, em plenário.
Barulhos políticos à parte, o processo poderia ter sido protocolar, como sempre ocorreu, desde 1894.
A melada de Zanin
O protocolo começou a mudar quando o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), entrou em campo, por motivos já conhecidos – mas, para constar.
À declarada preferência do Senado por Rodrigo Pacheco (PSB-MG), antecessor de Alcolumbre no comando do Senado, juntou-se uma emboscada preparada pelo ministro Cristiano Zanin para Acolumbre.
A saber. Na semana passada, Alcolumbre teria ficado possesso com um convite de Zanin para a casa do ministro, onde estava Messias – sem o conhecimento do senador.
Lá, foi feito um pedido de apoio ao presidente, que vinha rejeitando encontros com o próprio Lula. Alcolumbre sentiu-se usado por Zanin. O vazamento para a imprensa completou o desastroso roteiro.
Próximo a Alcolumbre e com bom trânsito na Casa, Pacheco foi preterido na indicação de Lula, que o preferiu – ou preferia, a essas alturas -, candidato ao governo de Minas Gerais.
Resumindo, até aqui: Alcolumbre articulou com a ‘bancada’ dele – todo presidente de parlamento tem a sua -, virou uns dez votos e ainda quase acerta o placar da votação secreta. “Ele vai perder de oito”, disse, em áudio vazado. Segue depois da publicidade
Messias perdeu por sete votos – deveria ter tirado, no mínimo, 41. Obteve 34. Outros 42 foram contra. Houve 1 abstenção e quatro ausências. Entre elas, Cid Gomes (PSB-CE). A gente trata disso depois.
A arrogância de Lula
Recordista em rejeição e pré-candidato à reeleição, Lula precisa de um bom palanque no segundo maior colégio eleitoral do País. Pacheco era um bom nome.
A arrogância do petista, que insistiu em Messias, porém, rendeu-lhe um lugar de destaque na lista das indicações ao STF. A rejeição não foi inédita, mas foi histórica.
Some-se a isso a imagem deteriorada do STF. A Corte passa por um dos piores momentos de sua história – por obra e graças das insustentáveis posições e situações de alguns de seus integrantes.
Virou bandeira de pré-candidatos da direita ao Senado bater em ministros da Corte. E a campanha eleitoral ainda está longe de começar.
Data venia, estão avisados
O resultado de ontem pregou aviso na entrada do Supremo. Se já tivemos pedido de indiciamento de ministros em CPI e, agora, uma rejeição, pode significar que processos de impeachment estejam a caminho.
Mas, como em política, tudo tem simbolismo, está ligado e permite leituras as mais diversas – até mesmo convenientes -, é justo considerar que a oposição está faturando em cima do vexame de Lula.
Já há profetas vaticinando o fim do governo e o fiasco eleitoral do petista como desdobramentos diretos do caso ‘Bessias’. Não é bem assim. Nunca é.
De novo. A oposição bolsonarista contribuiu, mas não foi decisiva. Foi Alcolumbre o jogador da partida. Mas é jogo jogado. Em início de ano eleitoral é assim mesmo. Depois piora.
Por último: o episódio faz lembrar uma das máximas do marketing político: vitórias têm muitos pais, muitas mães e muitos padrinhos. Mas toda derrota é órfã e pagã.
Boa véspera de feriado.
A Coluna Erivaldo Carvalho é publicada de segunda a sábado.

